A Virgem da Barca de Pedra

novembro 4, 2009

Não se sabe quanto, mas muito tempo se passou em que o Apóstolo Santiago tentava inutilmente converter os galegos, até que um dia, sem ânimo, sentado nas rochas da praia de Muxia, pensava seriamente em desistir e retornar à Palestina para tentar caminhos mais fáceis.

De repente, com o olhar fixo no horizonte, viu aproximar-se uma barca que parecia vir de mais além do Fim do Mundo, inexplicavelmente começou a encher-se de uma estranha alegria e quando a barca estava bem próxima se deu conta que era de pedra e que nela estava Nossa Senhora em pessoa!

A barca atravessou a margem da praia e a Virgem dirigiu-se a Santiago, dando-lhe ânimo para seguir com sua tarefa, assegurando-lhe que tanto ela quanto seu filho estariam ao seu lado nos momentos mais difíceis. Dito isso, se esfumaçou no ar, não antes de deixar como prova de sua visita, uma imagem sua e os restos da barca de pedra que a havia trazido até ali, que ficaram espalhados pela praia por muitos séculos.

O fragmento que constituía a quilha é conhecido hoje como “A Pedra dos Cadrises”. Tem fama de ser remédio seguro para os males das costa, que melhoram totalmente se o doente se arrasta pelo buraco que a pedra deixa. A outra pedra é considerada o resto da vela, a chamam de “A Pedra d’Abalar” e é uma rocha plana e oscilante que se move quando quem pisa está livre do pecado, mas que permanece firmemente agarrada as outras rochas, se quem sobe nela é pecador insensível!

A visita de Nossa Senhora devolvei o ânimo ao Apóstolo e com grande entusiasmo voltou a sua tarefa evangelizadora, conseguindo algumas conversões!

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Igreja da Virgem da Barca de Pedra

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Pedra que supostamente pertenceu à barca de Nossa Senhora


Muxia (último adeus!)

novembro 4, 2009

A saudade de casa estava cada vez mais forte! Ainda me restava um dia na Espanha, então resolvi visitar Música. Heiko foi comigo, ele também tinha mais um dia antes de regressar para Alemanha.

Pegamos o ônibus cedo, seriam poucos quilômetros, mas depois de quase um mês sem nenhum meio de transporte confesso que odiei a viagem no ônibus, fiquei com enjôo e me senti muito mal (deveria ter ido a pé).

Muxia é uma vila de pescadores muito simpática! No dia 13 de novembro de 2002 ocorreu ali um grande desastre ambiental! O Petroleiro Grego Prestige derramou nas águas galegas aproximadamente 77 mil toneladas de óleo, afetando 700 praias e matando mais de 200mil aves! Milhares de pessoas ajudaram na recuperação, mas os efeitos deste grande desastre ecológico ainda afetam o litoral.

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Óleo em Muxia

Em Muxia está muito presente a cultura Celta e segundo me informou o hospitaleiro do albergue, concentram-se ali pontos de energia, onde eram feitos rituais pagãos!

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Ponto de energia Celta

Em cima das pedras, de frente para o mar, está a obra “A Ferida” que demorou 6 meses para ficar pronta e o resultado é um grande monólito de mais de 11 metros de altura, dividido em duas partes, e simboliza a ruptura, o impacto que representou o Prestige para a costa galega.

Através da fenda pode-se ver o mar e a obra é observada também ao longe pelos barcos que se aproximam da terra, e para que seus tripulantes não esqueçam o impacto da maré negra e a enorme solidariedade em que se empenharam tantos voluntários!

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Depois fui conhecer a “Igreja da Virxe de Pedra”, cuja lenda merece um post a parte.

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Fiquei emocionada com aquela paisagem e sentada em uma pedra fiquei a conversar com Heiko sobre o caminho. Segundo ele, depois de cruzar os Pirineus e chegar ao albergue de Roncesvalles, estava cansado, sem conforto algum, água fria no banheiro, pessoas mais velhas… ele sentou-se fora do albergue e ao observar tudo a sua volta perguntou a si o que estava fazendo naquele local e agora, olhando o mar, o infinito, e depois de tudo que vivenciara no caminho, sabia exatamente o que estava fazendo ali! Mais uma vez as lágrimas ultrapassaram os limites do corpo e meu coração foi tomado de alegria. Heiko sorriu e disse: “dizem que no Caminho todos choram… eu pouco chorei”, então eu pedi para que não se preocupasse, pois eu tinha lágrimas para muita gente!

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O Sol mergulhara no oceano e a luz do Farol começou a piscar! Essa luz serve para sinalizar os barcos a noite ou em dias de mal tempo, orientando o rumo que devem seguir! Assim é o Caminho de Santiago para os peregrinos, uma LUZ que indica qual direção devemos seguir!

Heiko me deu seu colar dizendo que havia ganhado de seus amigos e que tinha certeza que um dia eu iria devolver! Não sei se nos veremos novamente! Foi um grande amigo e estará guardado em meu coração!

Era hora de partir! Voltar! Trilhar outros Caminhos, mas certamente um pedacinho da minha alma ficará nas trilhas da Espanha… Sei que voltarei, não sei como nem quando… Mas voltarei!

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Tradução da “Compostela”

outubro 28, 2009
“O capítulo desta Venerável Igreja Apostólica e Metropolitana Compostelana, guardiã do selo do Altar do bem-aventurado Apóstolo Thiago, que a todos os Fiéis e peregrinos vindos de todo o Orbe terrestre, por sentimento de devoção ou por motivo de promessa, à moradade Nosso Apóstolo Patrono e Protetor dos Espanhóis, São Thiago fornece autêntico certificado de visitação.
A todos e a cada um que vier examinar esta presente, faz saber que ……………………….
visitou devotadamente este sacratíssimo templo por motivo de fé. A ele confiro o presente documento como testemunho, munido do selo desta mesma Santa Igreja.
Data da Compostela, dia … do mês de … do ano do Senhor…
 
 E no selo do documento está escrito:
 
“Selo do Capítulo de Saõ Thiago de Compostela”
 

Compostela

Tradução cedida pelo peregrino Paulo Roberto T Silva, autor do livro: “Ruta Jacobea. O Caminho de Santiago de Compostela”.

 

Secretário capitular


Caminho de Finisterre – 3a. Etapa: Cee a Finisterra (morte para o renascimento)

outubro 23, 2009

Novamente sentimentos adversos tomavam conta de mim. Saudade da casa, da família e… saudade do Caminho que mais uma vez estava para terminar!

Deixei meus amigos seguirem na frente e fui um pouco mais lenta, como se quisesse prorrogar o inevitável!

Aproveitei os últimos quilômetros para agradecer a companhia de meu pai (avô)… ele ainda estava ao meu lado! Queria ver o mar! E a presença de Deus, latente, presente em cada detalhe, mostrando-me as belezas do mundo e da humanidade!

Um filme passava pela minha cabeça, era inacreditável tudo que se passara comigo! As lágrimas tornaram-se inevitáveis, principalmente quando passei pela praia próxima a Finisterra.

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O dia não estava tão ensolarado o que me deixava mais melancólica e a passos lentos eu seguia rumo ao Fim das Terras!

Sem saber uma surpresa maravilhosa esperava por mim! Quanta alegria!Ao entrar em Finisterra, próximo à estação de ônibus estavam eles… a minha espera! Segura emoção! Andreia (italiano), grande amigo no Caminho. Judh (australiana), os italianos Dário e Fellipo que encontrei em muitas etapas e… ele, meu anjo da guarda. Frank (alemão). Todos a minha espera!

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Pudemos chegar todos juntos ao final! Cheguei ao marco zero e mais à frente estava o mar… infinito!

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Parecia mesmo o fim do mundo e os peregrinos que ali estavam pareciam voltar para dentro de si! Encontrei um cantinho e lá fiquei a contemplar o horizonte, mal conseguia acreditar que eu estava ali… parecia um sonho lindo! Agora realmente acabara e o desfecho do meu Caminho era MARAVILHOSO! Choro convulsivo, choro de muitos sentimentos fundidos num só: GRATIDÃO!

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Heiko chamou-me. Chegara o momento do ritual da queima de roupa da peregrinação. Procuramos um local protegido do vento e queimei uma camiseta e uma meia (que estava furada)… Era como a Fênix, renascendo das cinzas e pronta para trilhar outros caminhos! O fogo consumiu rapidamente as peças… era o símbolo da renovação! E assim eu me sentia… Renovada!

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Encontramos Fabian, a garota austríaca que percorrera 1700 km com sua bike! Ela contou que durante todo percurso sua bicicleta nunca apresentara problemas e que ao chegar ao Cabo quebrou! Era hora de voltar para casa!

Para comemorar Andreia trouxe uma Torta de Santiago e uma garrafa de vinho! Que delícia…

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Descemos a enorme ladeira que nos levou ao Cabo e fomos a um bar em frente ao terminal de ônibus! Judh, Andreia e Frank partiriam!

Judh estava muito emocionada! Lágrimas tímidas insistiam em aparecer! Abraçamos-nos desejando uma boa vida!

Andreia me deu um abraço apertado e nos desejamos muita sorte e sucesso!

Agora Frank partiria e desta vez eu sentia que era para sempre… Depois de despedir-se de todos era minha vez, fiquei por ultimo! Durante todo o Caminho Frank sempre me dizia: “You are a good girl!” (você é uma boa garota) o que me deixava feliz e ciente da minha capacidade de amar o próximo! Naquele momento de despedida ele segurou meu rostos e olhando profundamente em meus olhos disse: “You are not a good girl” (você não é uma boa garota), por alguns segundos me perguntei o que eu tinha feito de errado, então com um largo sorriso ele finalizou: “You are a good woman” (você é uma boa mulher)! Eu não queria chorar, mas era impossível! Abraçamos-nos emocionados e Frank partiu…

Adeus meu amigo!

Adeus meu amigo!

 Algumas frases de Frank ficarão para sempre comigo: “You are a good girl”, “Tomorrow is another Day, a good Day” (amanhã será um outro dia, um bom dia) “Yes, you can” (sim, você pode) “Cerveza is good for the legs” (cerveja faz bem para as pernas) e sempre que eu perguntava se faltava muito para chegar ele, pacientemente respondia “Only twenty minuts” (só vinte minutos) sempre…!

Mais tarde Hiohana (holandesa) juntou-se a nós e fomos ver o por do sol em uma praia! Estávamos todos felizes! Alguns tiveram coragem e entraram no mar, inclusive Hiohana que só de calcinha corria feliz pulando as ondas e atirando-se ao mar, eu com cara de paisagem fingia achar aquilo muito normal! Não entrei, a água estava fria demais para uma brasileira!

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O Sol beijou o Mar e o céu ficou laranja! Era um espetáculo da natureza promovido por Deus que encerrava minha peregrinação!

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Heiko (alemão)

Heiko (alemão)

No dia seguinte iria para Muxia, de ônibus… Não percam!


Caminho de Finisterre – 2a. Etapa: Vilaserío a Cee (42km)

outubro 20, 2009

Acordei por volta das 07h30min. O Sol já dava sua graça… radiante! Minhas coisas estavam todas molhadas por causa do sereno da noite… Que noite!!! Dormir sob as estrelas foi maravilhoso!

Seria uma etapa bem longa, 42 km, mas eu já nem pensava mais em quilometragem… tinha me transformado em uma máquina de andar! E de sonhar!

Danilo (suíço) juntou-se a nós, mas depois de alguns quilômetros nos separamos e cada um seguiu em seu ritmo.

A paisagem era linda… muito verde e muita água. Caminhei por algum tempo em uma estrada de asfalto (preferia as de terra), mas neste dia tudo estava lindo!

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Depois passei por pastos onde o gado tomava banho de Sol. 

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Os gigantes voltaram a aparecer… Moinhos de energia eólica deixavam o caminho ainda mais bonito… Estavam lá, imponentes, como guardiões da natureza, lembrei-me de um filme que assisti mais de meia dúzia de vezes com meus filhos, Ponte para Terabítia: “… feche seus olhos, mas deixe a mente bem aberta”. Minha mente estava aberta, borboletas transformavam-se em fadas, um gavião que passou imponente cruzando o céu azul com sua presa no bico transformara-se em Guerreiro da Infantaria do Mestre das Trevas, criaturas mágicas materializavam-se em minha mente, criando vida, duendes me acompanhavam, tudo era mágico, o barulho da água correndo em direção ao mar e o colorido da natureza fazia-me muito bem.

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Cheguei a um bar a 15 km do destino final daquele dia e achei muito engraçado a placa feita precariamente que delicadamente avisava que seria o ultimo bar antes de chegar à Cee! Diante daquele intimado aproveitei para comer, beber e descansar um pouco e depois parti!

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Cheguei a Cee depois de caminhar 12 horas. A maquina de caminhar estava exausta, mas a alegria era tamanha que ao adentrar na cidade encontrei meus amigos de caminhada sentados em um bar e seguimos juntos, brincando de Guerra nas Estrelas, batalhando com nossos cajados que se transformaram em espadas de luz!

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Depois deste dia duro tomei um banho, jantei e desmaiei!


Caminho de Finisterre – 1a. Etapa: Santiago a Vilasério (35km)

outubro 15, 2009

Acordei bem cedo, arrumei a mochila silenciosamente e deixei o dormitório do albergue de Santiago. Caminhei até uma espécie de refeitório e encontrei a minha espera Frank, Heiko e Tobi (alemães) e Andera (italiano). Fomos até porta de saída do albergue e lá me despedi (mais uma vez) de Andrea, provavelmente esta seria a ultima vez que nos viríamos, nossa ultima despedida. Perguntei por que não iria até Finisterra e ele me explicou que seu caminho chegara ao fim. Santiago era sua parada final. Abraçamos-nos com votos de boa sorte e saímos. Eu estava feliz!

Sentia-me leve. Brincava com meu cajado, girando-o de um lado para o outro… Santiago estava num sono profundo!

Estávamos novamente em frente à Catedral para mais um adeus! Frank não iria conosco! Achei que a despedida seria mais difícil! Entreguei a ele minha bandana do Brasil, era como se eu não quisesse acreditar que meu “anjo da guarda” não iria comigo! Durante o caminho, sempre que precisávamos atravessar uma auto-estrada ou uma rua movimentada Frank segurava minha mão, pois dizia que eu era distraída! Tinha que ser sempre a mão esquerda, porque ele só tinha um braço! No momento da nossa despedida ele fez Tobi prometer que me daria a mão para atravessar as ruas! Rimos e nos abraçamos!

Meu coração estava apertado, uma lágrima tímida pulou do meu olho, mas algo me dizia que nos viríamos novamente!

Parti sem olhar para traz!

A saída de Santiago não foi muito fácil, não havia muitas setas amarelas, mas finalmente cheguei a um bosque lindo!

Rumo a Finosterra

Rumo a Finosterra

Caminhava feliz! Eram poucos peregrinos que passavam. Caminhava em meio a uma natureza viva! Muitas árvores, pássaros, riachos de águas cristalinas, povoados bem pequenos esquecidos no tempo, rios imponentes e Pontes Medievais me direcionavam ao passado e minha imaginação corria solta, imaginando como viveriam as donzelas e cavalheiros de épocas remotas!

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Era tudo muito lindo e meu coração estava em festa! Partira a muitos dias das montanhas de Saint Jean, ainda na França e agora estava a caminho do mar! Sentia sempre a presença de meu avô que foi um eterno viajante, vindo a Terra a passeio! Meu avô fez sua viagem final quando eu estava para completar 18 anos! Morrera na minha frente, de forma inesperada, uma ataque fulminante o levaria para uma jornada sem volta (ao menos nesta vida). Fiquei durante anos e anos me culpando por nunca ter lhe dito “EU TE AMO”, mas agora eu podia dizer e sabia que ele podia ouvir! Foi um português do mundo, sem parada e que amava estar perto do mar… sim, eu caminhava em direção ao mar e sabia que meu querido avô estava comigo, não sei como, mas sabia que ele estava lá! Feliz!

O Sol estava forte, o que deixava a paisagem com mais cores!

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Passei por Negreira, depois de caminhar 18 km. Uma cidade com boa infra estrutura para peregrinos! Parei para almoçar, fui ao mercado onde comprei água, chocolate e morangos e segui em frente!

Os vilarejos eram bem rurais e muito pequenos! Sabia que encontraria um albergue para peregrinos em Vilasério. Bem, o albergue se resumia em uma escola abandonada, com colchões no chão, alguns banheiros e dois chuveiros… detalhe: Não havia trancas em nenhuma porta, inclusive nas dos banheiros! Outro detalhe: O albergue estava lotado e não tinha mais como colocar colchões do lado de dentro! Solução: DORMIR AO RELENTO!

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Com alguns colchões do lado de fora lavei algumas roupas e coloquei para secar em um varal improvisado!

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Conheci uma austríaca, Fabian, garota muito bonita que fazia o caminho de bicicleta. Já percorrera 1700 km de bike!

Ela juntou-se a nós e fomos jantar em um bar. Na volta trouxemos algumas garrafas de vinho para espantar o frio da noite e ao passar por uma casa vimos uma senhora toda de preto que gritava com as galinhas… Em couro soltamos um Buenas Noches e como resposta recebemos um “Borracheros” (bêbados)!

Aquela senhora era assustadora! Parecia uma bruxa de contos infantis! Aliás, aquele vilarejo era assustador! Só havia mulheres, velhos e muitas galinhas!

Foi difícil pegar no sono com aquele teto de estrelas sobre minha cabeça. Estava sob a Via Láctea e me lembrei de uma passagem do Pequeno Príncipe: “… as estrelas são todas iluminadas… Não será para que cada um possa um dia encontrar a sua?” Fiquei aí, procurando a minha estrela, até o sono se aproximar de mansinho e me levar para as profundezas de meus sonhos… Lindos naquela noite estrelada!


Agradecimento e Lições do Caminho

outubro 7, 2009

Neste momento sinto – me tomada pelo sentimento de gratidão e preciso agradecer:

Obrigada Kátia Esteves, por me abrir as portas do Caminho e permitir que eu continue caminhando através da escrita em sue Blog.

Obrigada Henrique, Angelo e D. Maria, por dividirem a ansiedade pré Caminho e por me darem forças e incentivos.

Obrigada a todos que encontrei durante o Caminho, com vocês ri, chorei e cantei. Vocês foram anjos e serão eternamente amigos.

Obrigada aos peregrinos e futuros peregrinos do Orkut, mesmo sem conhecê-los pessoalmente vocês fazem parte do meu caminho.

Obrigada aos meus familiares por acreditarem que eu seria capaz e obrigada aqueles que duvidaram de mim, pois isso me deu mais forças para vencer.

Obrigada ao meu marido por segurar a barra sozinho em casa enquanto eu estava longe.

Obrigada aos meus filhos que sofreram com a ausência da mãe por mais de 30 dias.

Obrigada vô, por embrenhar-se nas montanhas, cruzar o caminho dos ventos e terminar frente ao mar ao meu lado.

Obrigada, muito obrigada a todos que trilharam e continuam trilhando o Caminho de Santiago de Compostela!

 

Quero dividir com vocês um pouco do que aprendi em:

 

 LIÇÕES DO CAMINHO

 

Não somos nós que percorremos o Caminho… Ele nos percorre

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Estive cercada de amigos quando precisei.

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Estive só quando necessitei

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Sorri muito, e chorei quando senti vontade

Entendi que a felicidade está em ser e não em ter.

No caminho somos todos iguais… nem mais nem menos… iguais!

Encontrei anjos, muitos deles.

Plantei uma árvore e vou crescer.

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Aprendi que precisamos perder algumas coisas para encontrar outras.

Aprendi que subir uma montanha não é fácil, mas a vista lá do alto sempre faz valer a pena.

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Aprendi que minhas dores são sempre menores que a de outras pessoas, e que seguindo em frente posso superá – las

meu pé

meu pé

 

pé de uma holandeza

pé de uma holandeza

Aprendi que gestos e olhares valem mais que mil palavras.

Aprendi que amanhã é sempre um novo dia e pode ser um dia melhor.

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Aprendi que para sair do lugar é preciso andar.

Aprendi que meus passos podem me levar bem longe.

Entendi que sou uma moradora do Brasil, mas uma cidadã do MUNDO!

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Santiago

outubro 6, 2009

Pois é… o final estava a apenas 5 km. Santiago estava logo ali!!!

Acordei, arrumei a mochila mais devagar do que de costume e parti com meus amigos Heiko, Frank e Tob. Estávamos felizes. Logo encontrei Ivã, um carioca de Rio das Ostras que eu havia conhecido há muitos dias atrás. Ele iniciara o caminho com seus 2 amigos, um deles havia alcançado uma graça e estava fazendo o caminho para cumprir a promessa e os outros dois o acompanhavam.

Ivã, bem mais barbudo do que no dia em que nos conhecemos, acabara seu Caminho só! A esposa  daquele que cumpria a promessa adoeceu e os dois amigos voltaram para o Brasil. Emocionado, com o nome dos companheiros no peito, uma camisa do Brasil com muitas dedicatórias de conhecidos e familiares, caminhava rumo a Catedral!

Ivã levando os amigos no peito

Ivã levando os amigos no peito

Entramos em Santiago! Era difícil de acreditar. Parecia um sonho materializando-se a minha frente! Pausa para fotos, muita emoção, cabeça a mil por hora… depois de quase 800km eu chegara!

Para sempre em meu coração

Para sempre em meu coração

Encontrei Fabrício na lateral da Catedral, esta seria a ultima vez que nos viríamos, ele iria para Finisterra. Eu estava um pouco aérea, como se estivesse anestesiada!

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Fui retirar minha compostela. Na saída, sentindo – me orgulhosa, avistei um grupo de turistas brasileiros com uma guia portuguesa, naquele momento me senti importante… Era PEREGRINA e não uma simples turista, enchi os pulmões de ar e gritei: BRASIIIIIL!! Todos olharam e atraídos pela curiosidade encheram-me de perguntas a respeito da peregrinação e eu cheia de orgulho respondia tudo exibindo minha compostela para muitas máquinas fotográficas!

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Passado o momento Pop Star fui ao albergue que ficava bem distante da Catedral. Uma linda construção, muito bem organizado e limpo, com muitas camas prontas para receber muitos peregrinos.

Eu podia deixar minha mochila e voltar à Catedral para a missa, mas não queria deixá-la, minha mochila havia sido minha companheira, passara por tudo ao meu lado, em muitos momentos conversava comigo, me ouvia, tornara – se parte de mim, minha casa, tudo que eu precisava ela guardava,  e iria à missa comigo também!

A Catedral estava lotada! Encontrei Luiz, radiante com outros brasileiros, encontrei a Judh (canadense), com os italianos e o suíço Danillo e para minha surpresa e alegria, encontrei Andrea, com quem havia caminhado alguns dias e me separado em Najera por causa da terrível tendinit causada pela má escolha do calçado, Andrea, mesmo experiênte fazia o caminho de tênis e foi obrigado a comprar uma bota para que pudesse proceguir! Abraçamos-nos emocionados, lágrimas eram inevitáveis! Isto é o caminho… um mar de encontros, desencontros e reencontros! Quanta alegria!

A missa foi extraordinariamente linda e foi impossível não chorar ao som dos órgãos e da beleza do Bota Fumeiro! Fui abençoada!

Emoção

Emoção

Ivã chorava o tempo todo, segurava 4 pedras, cada uma com um nome: A ex mulher, os dois filhos e a namorada! Achei aquilo fantástico! Ele carregava consigo as pessoas mais importantes para ele!

Ivã emocionado

Ivã emocionado

as 4 pedras

as 4 pedras

Sentia – me estranha, parecia que ainda não tinha caído na real, depois da missa nos dirigimos para Praça em frente à Catedral, era a união dos povos, eu conversava, ria, chorava, mas parecia que eu assistia a tudo de fora de mim, como uma expectadora!

Brasil, Alemanha, Alemanha, Canadá, Itália

Brasil, Alemanha, Alemanha, Canadá, Itália

Foi só quando voltei ao albergue, deitada na cama, que a ficha caiu… Acabou! Eu venci! Coloquei as mãos sobre o rosto e o choro veio à tona! Frank estava ao meu lado e assustou-se perguntando o que eu tinha, eu respondi que estava bem, levantei e sai! Sentada do lado de fora, em um lindo gramado com vista para cidade de Santiago eu chorava e repetia em voz alta, sem me importar com o que achariam as pessoas que passavam por mim… “Cheguei! Acabou! Eu posso qualquer coisa… Sou um pássaro e quero voar… posso tudo! Obrigada!” As lágrimas lavavam meu rosto e minha alma!

Foi uma busca, foram encontros, emoção… muita emoção! Nem eu acreditava que seria capaz e agora estava lá! Este sentimento ninguém podia arrancar de mim… o que eu vivi naqueles dias ficaria eternizado! Foi um encontro com o meu Caminho! Sim… eu venci! Modificada, mais segura de mim, com minha auto estima elevada, com meu coração em paz por perdoar quem me magoou e o mais importante, me perdoar e perceber o quanto sou importante para mim. Paz… sentimento bom! Com a pele queimada, os cabelos secos, os pés com alguns calos, as pernas mais torneadas pelos quilômetros percorridos, com alguns quilos a menos, sabia que agora tinha uma Luz própria há tempos apagada… estava preenchida de felicidade e gratidão! Certamente é impossível descrever com palavras o que senti naquele momento!

À noite, com algumas garrafas de vinho e muitos amigos fomos para Praça em frente à Catedral e brindamos nossas conquistas! Todos emocionados, com roupas surradas, pés machucados, barbas mal feitas, cabelos quebrados e despenteados, mas guerreiros e vitoriosos! Verdadeiros canhões de luz!

Celebração da vitória

Celebração da vitória

Diante de alguns olhares preconceituoso de pessoas impecavelmente arrumadas sentíamo-nos superiores e imensamente felizes! Só nos sabíamos o que custara estar ali! O que nos levara até alí, bolhas nos pés, nervos inflamados, noites mal dormidas, desconforto, frio e calor, subidas e descidas, espírito de aventura, o manto colorido dos anjos sobre as montanhas, as pedras da vida que uma a uma ficavam para traz nas diversas cruzes de ferro que o Caminho oferece, o verde vivo que termina com o beijo do céu  azul acolhendo as nuvens de algodão doce, e finalmente… o encontro com Deus!

Mais do que felizes

Mais do que felizes

 Não… para mim não podia acabar! Eu andaria até o fim do mundo… Vamos comigo para Finisterra, outra aventura, diferente e maravilhosa!


26a. Etapa: Arzua – Monte do Gozo

outubro 2, 2009

Acordei cedo e parti, um aperto no peito me incomodava um pouco, estava quase lá! Santiago estava próximo e o fim do caminho também!

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Um lindo bosque de eucaliptos me alegrou, sentia-me pequena diante daqueles gigantes da natureza, falavam comigo, tudo naquele momento falava comigo, o vento, os pássaros, o craquelar das folhas secas no chão, minha respiração, as batidas do meu coração que agora estava acelerado… Como a vida estava sendo generosa comigo!

Gigantes da naturaza

Gigantes da naturaza

Um turbilhão de sentimentos invadia meu ser, eu estava transformada! Eu finalmente acordara da inércia em que vivia!

Comecei a cantar uma musica do Gonzaguinha, Aprendiz, que me acompanhou durante quase todo o caminho e para minha surpresa Heiko (alemão) cantava comigo o refrão:

 “Viver, e não ter a vergonha de ser feliz

Cantar e cantar e cantar

A beleza de ser um eterno aprendiz

Ah meu Deus, eu sei, eu sei…

Que a vida podia ser bem melhor e será,

Mas isso não impede que eu repita

É a vida, é bonita e é bonita!

Essa foi certamente a canção da minha peregrinação!

O fim estava próximo para dar caminho a um novo começo! Fui o Caminho! Encontrei respostas que iam muito além das minhas perguntas!

O Sol estava bem quente e resolvemos ficar em Monte do Gozo, apenas a 5 km de Santiago, assim chegaríamos ao domingo cedo, dando tempo para retirar a Compostela e assistir à missa com o bota fumeiro.

O albergue de Monte do Gozo era enorme e estava bem cheio! A felicidade das pessoas era quase palpável!

Fui até o monumento que marca a visita do papa João Paulo II em 1992 e encontrei uma fitinha de Nossa Senhora Aparecida amarrada ali! Saudades de casa, já estava longe há muitos dias, como estariam meus filhos, meu marido, minha vida?

Monumento em homenagem ao papa

Monumento em homenagem ao papa

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No final da tarde fui a outro monumento, um pouco esquecido, não havia ninguém lá! Eram duas estátuas enormes de peregrinos apontando para Santiago.

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Meu coração não cabia no peito ao avistar pela primeira vez as torres da Catedral de Santiago, sentei no chão deliciando a paisagem, o Sol que já estava despedindo-se, assim como eu!

Foi o por do sol mais belo até o momento! Uma lágrima rolou! Sorri e voltei!

Lindo Por do Sol

Lindo Por do Sol

O albergue dormia! Eu, apesar do cansaço demorei a pegar no sono… era um misto de emoções!


25a. Etapa: Ligonde – Arzua

setembro 29, 2009

O céu estava especialmente lindo naquele dia! Com um colorido mágico!

Bom dia!!!

Bom dia!!!

Continuei caminhando por bosques e florestas, um aroma delicioso no ar! Cheiro de vida! Atravessei a ponte medieval sobre o rio Furelos, a paisagem alegrava meus olhos!

Ponte Medieval

Ponte Medieval

 Cheguei à Melide, mas não comi o famoso pulpo! É um pueblo relativamente grande, com muita gente nas ruas, muito trafego de carros! Esta é uma paisagem que não me agradava e eu fazia questão de seguir!

Encontrei Fabrício em um bar, ele estava agora caminhando com um espanhol e uma alemã, parecia muito animado! Fiquei orgulhosa, pois sabia dos obstáculos impostos pelo corpo que Fabrício havia superado, e detalhe: ele fazia o Caminho de papete! Grande garoto! Despedimos-nos e segui em frente!

Fazia muito calor, a agua da minha garrafinha esquentava com muita rapidez e eu ficava torcendo para chegar logo uma fonte, onde aproveitava para me refrescar! A esta altura era engraçado meu brozeado, com a marca da bermuda e da camiseta! Eu dizia que era a “tatoo peregrino”! Tudo era festa!

Que calor!

Que calor!

 Um pouco antes da minha parada final uma cena chamou minha atenção! Ao passar por um pasto vi um gato em posição de ataque, pronto para golpear sua vítima, e ao seu lado um pássaro, piando, como que tentando afugentá – lo aos “gritos”, mesmo podendo ser atacado e morto, precisava tentar salvar sua cria! Instinto materno, um pássaro enfrentando um gato para salvar seu filhote! Aquela cena me fez entender que não importa o quato frágil parecemos ser, o que importa é a vontade de vencer e a atidude de buscar o que desejamos e sonhamos!

Eu não fiquei para ver o desfecho desta cena.  Não podia interferir no ciclo da vida! Tinha que seguir, aquela não era minha estória!

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Cheguei a Arzua e fiquei em um albergue privado bem no início do pueblo. No final da tarde, sentada com meus amigos alemães em frente ao albergue eu ouvi dois homens falando em português! Doce idioma! Foi aí que conheci o Luiz Bompastor, muito simpático, usando um chapéu com a bandeira do Brasil, depois conheci outros brasileiros que estavam no mesmo albergue. O engraçado foi que Luiz disse que ao me ver pensou que eu não fosse brasileira (mesmo usando uma bandana do Brasil). Conversando, Luiz me contou que já havia feito o caminho várias vezes e eu senti uma pontinha de inveja (inveja boa)!

 Fui dormir ansiosa pelo dia que estava por vir! O fim da minha aventura estava próximo e o medo da volta aumentava a cada passo!


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