Alto do Perdão

maio 10, 2009

Vamos continuar a nossa caminhada até o túmulo de Santiago. O meu dia, que começou com um belo café da manhã, terminou com dores no corpo em uma minúscula cidade-dormitório próxima a Pamplona, Cizur Menor (digo minúscula, porque existe Cizur Maior ao lado, que considero pequena, logo….).

No dia seguinte estava bastante apreensivo, pois iria enfrentar a primeira grande subida, o Alto do Perdão. Havia uma quantidade grande de peregrinos espanhóis nesta etapa, afinal estávamos na semana da Páscoa e grande parte tira esta semana inteira de folga. E lá fui eu……

Subi devagar, um pouco envergonhado, pois muitos passaram por mim, num ritmo melhor e com um ânimo maior. Mais uma das muitas bobagens que se pensa pelo Caminho! Cada um tem seu ritmo, cada um tem seu tempo, cada um tem seu objetivo, cada um tem seu Caminho!

A visão do Alto do Perdão é incrível; são aqueles geradores de energia eólica gigantes por toda a encosta do morro, girando constantemente, e você chegando mais perto a cada passo. Preciso ser mais claro? Que frio! Como venta naquele lugar….. Que lindo! Que paisagem maravilhosa, de um lado aquilo que já percorri, de outro, aquilo que pretendo percorrer e no meio, eu.

As estátuas de ferro, simbolizando os primeiros peregrinos, emocionam. Todos tiram fotos, enviam mensagens pelo celular, conversam, bebem água, descansam. É um local de confraternização, afinal passamos a primeira barreira. E o Caminho vai seguir, e a vida? Bem, a vida também vai seguir……

Hoje, depois que a vida seguiu, pude assimilar o que significou aquela parada. Estava lá descansando e vendo a trilha que acabara de percorrer, o meu passado. O sofrimento para chegar até aquele ponto e a felicidade do objetivo alcançado. O desafio vencido!

Novamente preparado consultei o mapa e a trilha que iria caminhar até o meu objetivo seguinte: Eunate. Era uma descida forte, com pedras soltas, na qual cada passo deve ser dado com atenção. Seriam novos passos, novos sofrimentos, novos desafios….. meu futuro. Chegou a hora de encará-lo….. Fui…….

Conclusão: não tema nenhum desafio, vença-os. Não fique preso ao passado, use-o apenas de incentivo para mostrar que você é capaz. Não tema o sofrimento e a dor futura, pois no passado você enfrentou-os e venceu. Ou seja, nunca desista por medo de não suportar a derrota, afinal você já obteve inúmeras vitórias sem sequer perceber.

E se, depois desta reflexão, você concluiu que já abandonou seus sonhos por medo e comodidade, nada melhor do que mudar neste momento, afinal você está no Alto do Perdão!

Perdoe-se! Resgate seus sonhos! Resgate sua vida!

Ultreya, Suseya! Um triplo abraço…….


Cheguei…….

maio 1, 2009

Conforme conversamos, aos poucos contarei as minhas experiências no Caminho de Santiago, ou como gosto de dizer, no meu Caminho. Afinal este é um Caminho pessoal, intransferível e único.

Após minha chegada à Espanha, fui de avião até Pamplona, depois de táxi até Roncesvalles. Era início da primavera, havia duas semanas que o inverno tinha nos deixado. Era semana de Páscoa….

Comecei a caminhada e vieram as dores comuns a todos os peregrinos. Aqueles que já caminharam sabem e aqueles que pretendem caminhar também devem saber: os primeiros dias são muito dolorosos….. Mas gratificantes muito gratificantes…..

Cheguei a Pamplona, agora caminhando como um peregrino. Era manhã de um belíssimo domingo de Páscoa e eu ainda um pouco perdido na primeira grande cidade do Caminho, caminhava….. De repente um senhor me aborda na rua e pergunta ‘Você é peregrino?’, e respondi com orgulho ‘Sim’…. Orgulho por mostrar que estava ali de vontade própria, sofrendo, abdicando de tudo, um mártir….. Que idiota!!!!

Este senhor olhou novamente e disse ‘Vamos numa padaria que te pago o café da manhã’ E eu, instintivamente respondi ‘Não, obrigado. Vou continuar caminhando’. Era um desconhecido me oferecendo um café. Por quê? Para me levar num canto isolado, junto com alguns comparsas e me assaltar. Que mau-caráter, pensar em assaltar um peregrino. Logo eu, um santo homem que está dando sangue, suor e sofrimento por uma causa nobre….. Como tem gente má no mundo….. E ele continuou insistindo e eu fugindo, até que não houve jeito e fui à padaria. Mas muito ligado, esperto – sou brasileiro, muito malandro para cair neste tipo de golpe.

Tomei minha média, dois croissants, iogurte e uns docinhos que até hoje não sei o nome, sei apenas que são muito bons. Conversamos sobre Brasil, sobre Espanha, as dores, as próximas etapas e muito mais. Na hora de pagar, eu peço para dividir e ele se ofende…..

Disse-me então que eu era convidado e que era domingo de Páscoa, dia em que as pessoas deveriam pensar muito mais umas nas outras. A conta era dele. Ao me despedir disse que não tinha como agradecê-lo pela refeição e ele respondeu: ‘Não precisa agradecer, apenas acenda uma vela e faça uma oração por mim ao chegar a Santiago. Meu nome é Antonio’. Toda a dor física transformou-se em dor moral – havia desconfiado e prejulgado uma pessoa tão especial.

Desculpe-me, Seu Antonio!

Que as gotas da chuva molhem suavemente o seu rosto,

Que o vento suave refresque seu espírito,

Que o sol ilumine seu coração,

Que as tarefas do dia não sejam um peso nos seus ombros,

E que Deus envolva você no manto do Seu amor.

Que a estrada se abra à sua frente,

Que o vento sopre levemente em suas costas,

Que o sol brilhe morno e suave em sua face,

Que a chuva caia de mansinho em seus campos.

E até que nos encontremos de novo…

Que Deus guarde você na palma da Sua mão.

Obrigado, Seu Antonio!

Ultreya, Suseya!  Um triplo abraço…….


Minha primeira vez…..

abril 26, 2009

Muitas são as vezes que repetimos ‘esta é a minha primeira vez…..’. Hoje novamente direi a frase e a partir dela escreverei.

Esta é a minha primeira vez que escrevo em um blog. Nunca tive pretensão de me conectar ao mundo virtual. Sempre achei que quem tinha blog era jornalista, filósofo, etc. e tinha sempre algo interessante a dizer. No meu caso não considerei nunca ter algo interessante a dizer, logo não tenho blog e nunca colaborei em nenhum. Convenceram-me do contrário. Esta é a minha primeira vez….

Esta é a minha primeira vez….. Foi a frase que disse quando fui comprar a passagem para Espanha para peregrinar até Santiago. Nunca tinha ido para a Europa, o velho continente. Mas porque na primeira oportunidade visitá-lo, caminhar quase 800 km e não conhecer Paris, a cidade luz? Ou Roma e sua história, ou Londres e seu fog? Sinceramente, não tenho a mínima idéia.

Esta é a minha primeira vez e vou para o nada, caminhar por onde não conheço sem saber como, quanto tempo e se vou conseguir, por quê?… Esta foi a frase que falei para minha família no aeroporto ao embarcar. Uma frase longa, mas facilmente simplificada: MEDO. Estava com medo, ou, honestamente, apavorado. Meus amigos, meus colegas de trabalho, minha família achou o projeto interessante, todos apoiaram, mas alguns questionaram minha capacidade em executá-lo. O que seria de mim se falhasse? Voltar para casa sem a Compostelana? Será que conseguiria? Medo…..

Fui, caminhei, peregrinei, rezei, chorei, sorri, ri, sofri, comi, bebi, conheci, conversei, ouvi, consegui…… VENCI. Eu tinha descoberto porque havia decidido ir.

Se nunca tivesse falado a frase ‘esta é a minha primeira vez…. ‘ a lista de verbos, resumida acima por não querer me alongar, seria trocada por apenas um: desisti……

Hoje já tenho dois Caminhos  feitos, trabalho voluntário em albergue do Caminho e várias experiências pela Europa. E não pararei por aqui, afinal ‘aquela foi a minha primeira vez….. ’, depois vem a segunda, terceira, quarta…….

Vou aos poucos colocando um pouco das minhas experiências vividas e aprendidas. Vou devagar, mas pelo menos já passei a barreira da primeira vez……

 

Ultreya e Suseya!!!! Um triplo abraço a todos…..


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