Muxia (último adeus!)

novembro 4, 2009

A saudade de casa estava cada vez mais forte! Ainda me restava um dia na Espanha, então resolvi visitar Música. Heiko foi comigo, ele também tinha mais um dia antes de regressar para Alemanha.

Pegamos o ônibus cedo, seriam poucos quilômetros, mas depois de quase um mês sem nenhum meio de transporte confesso que odiei a viagem no ônibus, fiquei com enjôo e me senti muito mal (deveria ter ido a pé).

Muxia é uma vila de pescadores muito simpática! No dia 13 de novembro de 2002 ocorreu ali um grande desastre ambiental! O Petroleiro Grego Prestige derramou nas águas galegas aproximadamente 77 mil toneladas de óleo, afetando 700 praias e matando mais de 200mil aves! Milhares de pessoas ajudaram na recuperação, mas os efeitos deste grande desastre ecológico ainda afetam o litoral.

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Óleo em Muxia

Em Muxia está muito presente a cultura Celta e segundo me informou o hospitaleiro do albergue, concentram-se ali pontos de energia, onde eram feitos rituais pagãos!

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Ponto de energia Celta

Em cima das pedras, de frente para o mar, está a obra “A Ferida” que demorou 6 meses para ficar pronta e o resultado é um grande monólito de mais de 11 metros de altura, dividido em duas partes, e simboliza a ruptura, o impacto que representou o Prestige para a costa galega.

Através da fenda pode-se ver o mar e a obra é observada também ao longe pelos barcos que se aproximam da terra, e para que seus tripulantes não esqueçam o impacto da maré negra e a enorme solidariedade em que se empenharam tantos voluntários!

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Depois fui conhecer a “Igreja da Virxe de Pedra”, cuja lenda merece um post a parte.

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Fiquei emocionada com aquela paisagem e sentada em uma pedra fiquei a conversar com Heiko sobre o caminho. Segundo ele, depois de cruzar os Pirineus e chegar ao albergue de Roncesvalles, estava cansado, sem conforto algum, água fria no banheiro, pessoas mais velhas… ele sentou-se fora do albergue e ao observar tudo a sua volta perguntou a si o que estava fazendo naquele local e agora, olhando o mar, o infinito, e depois de tudo que vivenciara no caminho, sabia exatamente o que estava fazendo ali! Mais uma vez as lágrimas ultrapassaram os limites do corpo e meu coração foi tomado de alegria. Heiko sorriu e disse: “dizem que no Caminho todos choram… eu pouco chorei”, então eu pedi para que não se preocupasse, pois eu tinha lágrimas para muita gente!

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O Sol mergulhara no oceano e a luz do Farol começou a piscar! Essa luz serve para sinalizar os barcos a noite ou em dias de mal tempo, orientando o rumo que devem seguir! Assim é o Caminho de Santiago para os peregrinos, uma LUZ que indica qual direção devemos seguir!

Heiko me deu seu colar dizendo que havia ganhado de seus amigos e que tinha certeza que um dia eu iria devolver! Não sei se nos veremos novamente! Foi um grande amigo e estará guardado em meu coração!

Era hora de partir! Voltar! Trilhar outros Caminhos, mas certamente um pedacinho da minha alma ficará nas trilhas da Espanha… Sei que voltarei, não sei como nem quando… Mas voltarei!

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Agradecimento e Lições do Caminho

outubro 7, 2009

Neste momento sinto – me tomada pelo sentimento de gratidão e preciso agradecer:

Obrigada Kátia Esteves, por me abrir as portas do Caminho e permitir que eu continue caminhando através da escrita em sue Blog.

Obrigada Henrique, Angelo e D. Maria, por dividirem a ansiedade pré Caminho e por me darem forças e incentivos.

Obrigada a todos que encontrei durante o Caminho, com vocês ri, chorei e cantei. Vocês foram anjos e serão eternamente amigos.

Obrigada aos peregrinos e futuros peregrinos do Orkut, mesmo sem conhecê-los pessoalmente vocês fazem parte do meu caminho.

Obrigada aos meus familiares por acreditarem que eu seria capaz e obrigada aqueles que duvidaram de mim, pois isso me deu mais forças para vencer.

Obrigada ao meu marido por segurar a barra sozinho em casa enquanto eu estava longe.

Obrigada aos meus filhos que sofreram com a ausência da mãe por mais de 30 dias.

Obrigada vô, por embrenhar-se nas montanhas, cruzar o caminho dos ventos e terminar frente ao mar ao meu lado.

Obrigada, muito obrigada a todos que trilharam e continuam trilhando o Caminho de Santiago de Compostela!

 

Quero dividir com vocês um pouco do que aprendi em:

 

 LIÇÕES DO CAMINHO

 

Não somos nós que percorremos o Caminho… Ele nos percorre

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Estive cercada de amigos quando precisei.

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Estive só quando necessitei

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Sorri muito, e chorei quando senti vontade

Entendi que a felicidade está em ser e não em ter.

No caminho somos todos iguais… nem mais nem menos… iguais!

Encontrei anjos, muitos deles.

Plantei uma árvore e vou crescer.

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Aprendi que precisamos perder algumas coisas para encontrar outras.

Aprendi que subir uma montanha não é fácil, mas a vista lá do alto sempre faz valer a pena.

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Aprendi que minhas dores são sempre menores que a de outras pessoas, e que seguindo em frente posso superá – las

meu pé

meu pé

 

pé de uma holandeza

pé de uma holandeza

Aprendi que gestos e olhares valem mais que mil palavras.

Aprendi que amanhã é sempre um novo dia e pode ser um dia melhor.

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Aprendi que para sair do lugar é preciso andar.

Aprendi que meus passos podem me levar bem longe.

Entendi que sou uma moradora do Brasil, mas uma cidadã do MUNDO!

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Santiago

outubro 6, 2009

Pois é… o final estava a apenas 5 km. Santiago estava logo ali!!!

Acordei, arrumei a mochila mais devagar do que de costume e parti com meus amigos Heiko, Frank e Tob. Estávamos felizes. Logo encontrei Ivã, um carioca de Rio das Ostras que eu havia conhecido há muitos dias atrás. Ele iniciara o caminho com seus 2 amigos, um deles havia alcançado uma graça e estava fazendo o caminho para cumprir a promessa e os outros dois o acompanhavam.

Ivã, bem mais barbudo do que no dia em que nos conhecemos, acabara seu Caminho só! A esposa  daquele que cumpria a promessa adoeceu e os dois amigos voltaram para o Brasil. Emocionado, com o nome dos companheiros no peito, uma camisa do Brasil com muitas dedicatórias de conhecidos e familiares, caminhava rumo a Catedral!

Ivã levando os amigos no peito

Ivã levando os amigos no peito

Entramos em Santiago! Era difícil de acreditar. Parecia um sonho materializando-se a minha frente! Pausa para fotos, muita emoção, cabeça a mil por hora… depois de quase 800km eu chegara!

Para sempre em meu coração

Para sempre em meu coração

Encontrei Fabrício na lateral da Catedral, esta seria a ultima vez que nos viríamos, ele iria para Finisterra. Eu estava um pouco aérea, como se estivesse anestesiada!

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Fui retirar minha compostela. Na saída, sentindo – me orgulhosa, avistei um grupo de turistas brasileiros com uma guia portuguesa, naquele momento me senti importante… Era PEREGRINA e não uma simples turista, enchi os pulmões de ar e gritei: BRASIIIIIL!! Todos olharam e atraídos pela curiosidade encheram-me de perguntas a respeito da peregrinação e eu cheia de orgulho respondia tudo exibindo minha compostela para muitas máquinas fotográficas!

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Passado o momento Pop Star fui ao albergue que ficava bem distante da Catedral. Uma linda construção, muito bem organizado e limpo, com muitas camas prontas para receber muitos peregrinos.

Eu podia deixar minha mochila e voltar à Catedral para a missa, mas não queria deixá-la, minha mochila havia sido minha companheira, passara por tudo ao meu lado, em muitos momentos conversava comigo, me ouvia, tornara – se parte de mim, minha casa, tudo que eu precisava ela guardava,  e iria à missa comigo também!

A Catedral estava lotada! Encontrei Luiz, radiante com outros brasileiros, encontrei a Judh (canadense), com os italianos e o suíço Danillo e para minha surpresa e alegria, encontrei Andrea, com quem havia caminhado alguns dias e me separado em Najera por causa da terrível tendinit causada pela má escolha do calçado, Andrea, mesmo experiênte fazia o caminho de tênis e foi obrigado a comprar uma bota para que pudesse proceguir! Abraçamos-nos emocionados, lágrimas eram inevitáveis! Isto é o caminho… um mar de encontros, desencontros e reencontros! Quanta alegria!

A missa foi extraordinariamente linda e foi impossível não chorar ao som dos órgãos e da beleza do Bota Fumeiro! Fui abençoada!

Emoção

Emoção

Ivã chorava o tempo todo, segurava 4 pedras, cada uma com um nome: A ex mulher, os dois filhos e a namorada! Achei aquilo fantástico! Ele carregava consigo as pessoas mais importantes para ele!

Ivã emocionado

Ivã emocionado

as 4 pedras

as 4 pedras

Sentia – me estranha, parecia que ainda não tinha caído na real, depois da missa nos dirigimos para Praça em frente à Catedral, era a união dos povos, eu conversava, ria, chorava, mas parecia que eu assistia a tudo de fora de mim, como uma expectadora!

Brasil, Alemanha, Alemanha, Canadá, Itália

Brasil, Alemanha, Alemanha, Canadá, Itália

Foi só quando voltei ao albergue, deitada na cama, que a ficha caiu… Acabou! Eu venci! Coloquei as mãos sobre o rosto e o choro veio à tona! Frank estava ao meu lado e assustou-se perguntando o que eu tinha, eu respondi que estava bem, levantei e sai! Sentada do lado de fora, em um lindo gramado com vista para cidade de Santiago eu chorava e repetia em voz alta, sem me importar com o que achariam as pessoas que passavam por mim… “Cheguei! Acabou! Eu posso qualquer coisa… Sou um pássaro e quero voar… posso tudo! Obrigada!” As lágrimas lavavam meu rosto e minha alma!

Foi uma busca, foram encontros, emoção… muita emoção! Nem eu acreditava que seria capaz e agora estava lá! Este sentimento ninguém podia arrancar de mim… o que eu vivi naqueles dias ficaria eternizado! Foi um encontro com o meu Caminho! Sim… eu venci! Modificada, mais segura de mim, com minha auto estima elevada, com meu coração em paz por perdoar quem me magoou e o mais importante, me perdoar e perceber o quanto sou importante para mim. Paz… sentimento bom! Com a pele queimada, os cabelos secos, os pés com alguns calos, as pernas mais torneadas pelos quilômetros percorridos, com alguns quilos a menos, sabia que agora tinha uma Luz própria há tempos apagada… estava preenchida de felicidade e gratidão! Certamente é impossível descrever com palavras o que senti naquele momento!

À noite, com algumas garrafas de vinho e muitos amigos fomos para Praça em frente à Catedral e brindamos nossas conquistas! Todos emocionados, com roupas surradas, pés machucados, barbas mal feitas, cabelos quebrados e despenteados, mas guerreiros e vitoriosos! Verdadeiros canhões de luz!

Celebração da vitória

Celebração da vitória

Diante de alguns olhares preconceituoso de pessoas impecavelmente arrumadas sentíamo-nos superiores e imensamente felizes! Só nos sabíamos o que custara estar ali! O que nos levara até alí, bolhas nos pés, nervos inflamados, noites mal dormidas, desconforto, frio e calor, subidas e descidas, espírito de aventura, o manto colorido dos anjos sobre as montanhas, as pedras da vida que uma a uma ficavam para traz nas diversas cruzes de ferro que o Caminho oferece, o verde vivo que termina com o beijo do céu  azul acolhendo as nuvens de algodão doce, e finalmente… o encontro com Deus!

Mais do que felizes

Mais do que felizes

 Não… para mim não podia acabar! Eu andaria até o fim do mundo… Vamos comigo para Finisterra, outra aventura, diferente e maravilhosa!


22a Etapa: O Cebreiro – Triacastela (Padre Augusto)

setembro 17, 2009

Ao sair do albergue do Cebreiro fiquei sem ar diante de tamanha beleza na minha frente! O tempo estava aberto e fui agraciada com uma paisagem maravilhosa!

Saindo do Cebreiro

Saindo do Cebreiro

Caminhei até chegar ao Monumento aos Peregrinos que fica no Alto de São Roque a 1270m de altitude, e ali estava muito frio e neblina!

Neblina...

Neblina...

 

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Neste dia fez realmente muito frio, foi um dos dias mais frios para caminhar e junto com o frio muita lama! Pensei no Fabrício que estava fazendo o caminho de papete! Grande Fabrício!

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Em Triacastela tem muitos albergues, fomos à tienda onde vende–se de tudo e comprei uma Torta de Santiago (deliciosa) para o café da manhã seguinte.

Heiko (alemão) me convidou para ir à missa dos peregrinos e lá fomos nós… Chegamos na igreja e eu achei engraçado ver que ao lado havia muitos túmulos… era um cemitério junto à igreja!

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Eu e Heiko fomos até a porta e não havia ninguém, nos entreolhamos prontos a desistir da missa, quando surgiu uma figura sorridente e falante vestindo batina e praticamente nos “jogou” para dentro da igreja! Nos fez entrar na sacristia onde em uma estante guardava textos em todas as línguas! Encheu-me de poemas e textos em português e espanhol e para Heiko em alemão!

Durante a missa o padre escolheu um peregrino de cada nacionalidade para subir ao altar e participar lendo partes do sermão em seus idiomas… era inglês, alemão, espanhol, italiano e até japonês. O português ficou por minha conta, subi ao altar e mesmo sendo a única brasileira na igreja li em minha língua para todos os peregrinos que ali estavam…

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As palavras do padre Augusto  foram emocionantes, de uma grande simplicidade e uma profunda sabedoria, aquelas palavras tocaram meu coração! Heiko, mesmo sendo protestante, também ficou tocado com aquelas sabias palavras! O padre foi muito carinhoso e carismático, foi certamente mais um anjo para minha lista!

Um forte (mas muito forte mesmo) abraço e muitos beijos me fizeram mais uma vez me sentir amada e querida!

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20a Etapa: Riego de Ambrós – Villafranca del Bierzo

setembro 10, 2009

Hoje foi uma longa etapa de 34 km e para prejudicar choveu! Foi o primeiro dia que peguei chuva de verdade!

Chuva no caminho

Chuva no caminho

 

Passei por Molinaseca, depois cheguei a Ponferrada e fiquei impressionada com a grandeza do castelo e templo de Ponferrada (mas isso merece um post à parte).

Muito lindo!!!

Muito lindo!!!

Castelo de Ponferrada

Castelo de Ponferrada

Caminhei por lugares muito bonitos, pude ver cegonhas e plantações de papoula… Fiquei maravilhada!

Entre papoulas

Entre papoulas

Durante o caminho pude experimentar cerejas colhidas diretamente do pé, e eram muitas! Passei por diversos pueblos e a chuva não deu trégua, porém, caminhar entre plantações de cerejas, mesmo com chuva, era realmente muito gostoso!

Deliciosas cerejas

Deliciosas cerejas

Cheguei por volta das 15 h ao albergue Ave Fênix, da tradicional família Jato, conheci a hospitaleira gaúcha Beatriz e fui logo perguntando por Jato pois queria muito conhecê–lo. Quem me levou até o dormitório foi Carlos, hospitaleiro espanhol que estava por lá há alguns meses.

Albergue Ave Fenix

Albergue Ave Fenix

Logo encontrei Fabrício e foi neste albergue que vivemos uma experiência engrandecedora, que mexeu comigo e tenho certeza que com Fabrício também!

Perto da hora do jantar conhecemos a figura lendária de Jesus Jato e nos oferecemos para ajudar no jantar, sem cerimônias, Jato aceitou a colaboração e… mãos à obra!

Ajudamos a servir a refeição, participamos da oração, retiramos os pratos e talheres e no final… lavamos a louça, muita louça, mas sentíamos felizes, estávamos nos doando sem esperar nada em troca, foi uma sensação muito boa e eu podia sentir o carinho das pessoas! A cada dia eu podia sentir como a felicidade é alimentada por atitudes simples, por olhares e gestos, por sorrisos!

Jantar no albergue

Jantar no albergue

Fabrício e eu lavando a louça

Fabrício e eu lavando a louça

Jantamos mais tarde junto com Jato, Carlo, Beatriz e um francês loiro de rasta no cabelo que estava no caminho há 2 meses e como não tinha grana acabava ajudando nos albergues em troca de estadia e comida! Jato convidou–o para ficar por 3 ou 4 dias trabalhando e ele aceitou!

Jantar com hospitaleiros

Jantar com hospitaleiros

Foi um dia diferente! Mais uma experiência simples e enriquecedora! Estar ali com Jato e cercada de amigos não tem preço (nossa até parece propaganda de cartão de crédito)!

Para finalizar minha noite, consegui falar com meus filhos! A saudade era grande!


Castelo de Ponferrada

setembro 10, 2009

Ponferrada recebeu este nome por causa de uma grande ponte de madeira construída sob o rio Sil na época da ocupação Romana na Península Ibérica.

Tempos depois, no século XII, na Reconquista Cristã, o Bispo de Astorga, Osmundo, fez reforçar a ponte com ferro devido à grande riqueza deste e outros minérios existentes na região, ficando conhecida como “Pons ferrata”.

Em 1178 o rei Fernando II de Leão doou Ponferrada e seus domínios aos Cavaleiros Templários que se apoderaram do Castelo.

Segundo conta a lenda os Cavaleiros vieram para Europa trazendo de Jerusalém (local onde teria sido iniciada a Ordem com o objetivo de proteger os peregrinos que ali chegavam) e com eles trouxeram documentos, riquezas e supostamente até o Santo Graal.

Graças à herança templária o castelo é um criptograma em pedra, repleto de signos e vinculações astronômicas. As 12 torres do castelo correspondem aos 12 signos do zodíaco. Em seu interior eram realizados ritos de iniciação e até hoje o Castelo estimula mentes fantasiosas de pessoas que ainda sonham em encontrar o tesouro desaparecido que pertenceu aos templários e quem sabe até a Arca da Aliança (onde a tábua dos 10 mandamentos foi guardada) e que se acredita estar até hoje em seus subterrâneos (até parece filme do Indiana Jones)!

Castelo de Ponferrada

Castelo de Ponferrada

Conta-se também que o castelo está ligado a outros castelos distantes mediantes túneis pelos quais os templários fugiam quando eram ameaçados.

Não sei ao certo o que é fantasia e o que é realidade, mas sei que estórias como essas deixam o Caminho de Santiago ainda mais fascinante e enigmático, transformando internamente muitos peregrinos que recebem o “tal Chamado” para aventurar – se neste Caminho mágico!


19a Etapa: Santa Catalina de Somoza – Riego de Ambrós

setembro 8, 2009

Acordei ansiosa pelo que estava por vir… A Cruz de Ferro estava à minha espera e dentro de mim muita coisa para ser deixada lá!

Desde o início da caminhada meu coração explodia de alegria, eram subidas e mais subidas e as montanhas com um colorido mágico! Com algumas flores fiz uma coroa para minha cabeça e caminhava com uma sensação de euforia que tomava conta de mim! Minha mochila parecia tão leve neste dia! Estava tudo perfeito…

Coroa de flores!

Coroa de flores!

Em Rabanal Del Camino parei em um bar para comer algo e encontrei cachorros enormes das montanhas mas que nem de longe davam medo (naquele dia nada me dava medo). Depois de comer e tomar um chocolate quente segui em direção ao misterioso pueblo amaldiçoado!

Cachorros das montanhas!

Cachorros das montanhas!

Cheguei a Foncebadón, um povoado que já esteve abandonado e cheio de ruínas, mas que para mim exalou uma energia quase palpável, eu andava pelas ruas numa simbiose perfeita, prestando atenção a cada detalhe, como se eu fizesse parte daquela paisagem!

Um povoado esquecido pelo tempo

Um povoado esquecido pelo tempo

Continuei subindo hipnotizada pelas gigantescas montanhas cobertas de flores coloridas como se estivessem sendo agraciadas com um manto dos anjos, meus olhos sorriam e dois sentimentos invadiam meu ser… o de grandeza, por estar ali, por ser uma vencedora de meus medos e inseguranças, por estar buscando a felicidade… e o de um ser pequeno diante de tão exuberante beleza, sentia como se pudesse ser engolida por aquelas montanhas, percebia a imensidão de nosso Criador, misturava–me naquele mar de cores e energia divina!

Perto de Deus

Perto de Deus

Subi até o ponto mais alto, 1504 m onde está a Cruz de Ferro! A emoção mais uma vez transportava os limites do corpo e as lágrimas saiam… Fiquei ali, parada diante daquele monte de pedras do mundo inteiro e me senti assim… do mundo, livre e sem fronteiras.

Sem fronteiras

Sem fronteiras

Deixei minha pedrinha trazida do Brasil! Era um peso muito grande ficando para traz! Fiquei lá por uns trinta minutos com meus amigos de caminhada e depois seguimos descendo 2,5 km até Manjarín.

Só alegria!

Só alegria!

Estava me sentindo tão leve que desci correndo com Heiko, apostando corrida. Meu joelho não doía, minhas costas não doíam, meus pés não doíam, enfim, estava ótima! Ri, cantei, gritei, dancei, parecia uma louca, mas louca de felicidade!

Depois de subir aos céus... hora de descer...

Depois de subir aos céus... hora de descer...

Em Manjarín fui ao Albergue do Tomás! Queria muito conhecer esta figura que chega ser um mito no caminho, na verdade um pouco doido, ou muito doido, mas o que é ser normal? Dizem que ele se considera um Cavalheiro Templário e recebe todos os peregrinos tocando um sino, mas infelizmente Tomás estava fora e nem por isso deixei de receber o meu badalo! O sino foi tocado pelo hospitaleiro!

Frank e eu

Frank e eu

O albergue é bem simples, sem água quente ou banheiro, por estar bem alto faz muito frio por ali!

O hospitaleiro me disse que só precisava de roupa e comida para ser feliz (que inveja). Fiquei um pouco por lá, tomei um chá com bolachas, acariciei um gatinho e depois segui feliz… muito feliz.

No albergue de Manjarin

No albergue de Manjarin

Um hospede especial!

Um hospede especial!

Decidimos ficar em Riego de Ambrós!

Nossa que dia! Foncebadón, Cruz de Ferro e Manjarín… 3 lugares mágicos em um só dia! Agüenta coração!


A lenda de Foncebadón

setembro 8, 2009

Foncebadón já foi uma importante localidade no Caminho.

Aparece em vários documentos do século X. Naquele local o eremita Gaucelmo, por volta de 1123 construiu um hospital e um albergue para os peregrinos que passassem pelo vale de Foncebadón.

Existem documentos datados de 1103, pelo qual Afonso VI, a pedido do próprio Gaucelmo concede imunidade a albergaria de Foncebadón e a Igreja de São Salvador de Irago. Da documentação medieval existente, se depreende que houve ali um hospital, uma igreja, a de Santa Magdalena e já referida de San Salvador. Posteriormente fixou–se na região uma comunidade de eremitas que passou a depender da junta de Astorga, a qual criou a dignidade de Abade de Foncebadón.

Conta a lenda que após muitos anos, com Foncebadón prosperando muito, um cigano chegou a este povoado e pediu abrigo. A população local não só o expulsou como terminou em linchamento e sua morte na fogueira (como era de costume na época). Porém, antes de morrer o cigano rogou uma maldição, a vila morreria com seus habitantes e nada mais prosperaria naquelas terras e que o próprio demônio tomaria conta em forma de cães ferozes.

Foncebadon... Esquecida no tempo...

Foncebadon... Esquecida no tempo...

Esta é uma lenda, mas o fato é que Foncebadón foi condenada a acabar, ficando durante muito tempo somente ruínas de um povoado há tempos próspero, e muitos peregrinos, até hoje, evitam passar por lá temendo a aparição dos tais cães ferozes que muitos já tiveram a oportunidade de presenciar!


18a Etapa: Hospital de Órbigo – Santa Catalina de Somoza

setembro 2, 2009

Dia muito tranqüilo! Entrei numa zona mais rural, o caminho estava lindo! A natureza me abençoava, o dia estava perfeito! Até dei uma paradinha para acariciar um bezerrinho (fofucho) e a todo o momento agradecia a Deus por estar vivendo tudo aquilo!

Pausa no caminho

Pausa no caminho

Caminhava feliz apreciando tanta beleza…

Em um determinado trecho vi alguém sentado embaixo de uma árvore em posição de Buda, num lugar lindo! Aproximei-me e percebi que era o Fabrício, sentei ao seu lado e ficamos um pouco admirando a natureza, depois seguimos juntos por um trecho, conversando muito!

Chegamos a Astorga, um pueblo encantador e ao passar em frente a um bar, com mesas e cadeiras para fora, vi Frank, Heiko, Tob e uns italianos, resolvi juntar–me a eles para uma refrescante cervejinha. Fabrício seguiu em frente. Descansei e até deu tempo para escrever no meu diário, sentia–me leve, como há muito tempo não sentia.

Pensar...escrever

Pensar...escrever

Ao levantar para seguir o Caminho encontrei o Eduardo (carioca) que estava com os pés bem machucados (com muitas bolhas). Mais um rápido papinho e pé na estrada!

Eduardo e eu

Eduardo e eu

Antes de sair de Astorga demos uma paradinha para ver a obra do famoso arquiteto Antoni Gaudí.

Antono Gaudí

Antono Gaudí

Continuei o caminho por um trecho asfaltado e me deparei com uma papoula que havia nascido no meio da calçada, então percebi que coisas muito belas podem nascer em lugares impróprios e nem por isso deixam de ser belas!

Beleza no asfalto!

Beleza no asfalto!

Estava muito sol… caminhei até Murias de Rechivaldo e na saída deste pueblo entrei no albergue, muito bonito, bebi algo refrescante – rsss – cerveja, e me preparei para enfrentar os últimos 5 km até minha parada final daquele dia!

Sem sombras... nem dúvidas

Sem sombras... nem dúvidas

Em Santa Catalina tentei ligar para o Breno e o Cadu (meus filhos), mas não consegui… Que saudades!

Cheguei!

Cheguei!

Mais um dia estava se despedindo para um novo, cheio de emoções que estava por vir!

                                                                                                         

“… percebi a mudança da paisagem, os verdes campos são lindos. Nada pude fazer frente à tentação de tirar a mochila e sentar na grama, na verdade era exatamente o que eu queria. Fechei os olhos e coloquei em prática minha audição mal acostumada às barulhentas ruas de Salvador. Provavelmente não consiga expressar esse sentimento, mas é simplesmente mágico ouvir a conversa dos pássaros e as carícias do vento nas folhas da oliveira como um recém nascido que ouve seu próprio choro pela primeira vez.” (Trecho do livro Caminhos do Fim do Mundo – Sentimentos de um peregrino / Autor Fabrício Cruz)


17a Etapa: León – Hospital de Órbigo (uma estória medieval)

agosto 31, 2009

Hoje o dia foi muito gostoso! Foi bom caminhar, a paisagem estava mais verde e muito agradável, meus olhos e minha alma sorriam.

Ao chegar a Hospital de Órbigo fiquei impressionada com a enorme ponte medieval, chamada de El Paso Honroso, que tem 204 m e 20 arcos. Conta a história que em 1439 o cavaleiro Suero de Quiñones e seus nove seguidores guerrearam bravamente durante um mês vencendo todos os aventureiros que tentassem atravessar a ponte! Este bravo cavalheiro medieval declarava-se prisioneiro de amor e para conseguir a graça de sua libertação jurou quebrar 300 lanças em um mês. Cumprido o prometido foram a Santiago e ofereceram ao santo um bracelete de ouro como agradecimento. Com isso Dom Suero ganhou poder e influência.

Ponte Medieval

Ponte Medieval

Essa estória só fiquei sabendo depois do Caminho e confesso que achei um tanto quanto sanguinária, mas ao me deparar com aquela ponte medieval minha imaginação fértil voou longe! Podia até ver os cavalheiros com suas armaduras luxuosas disputando jogos medievais e eu… uma princesa com direito a vestido longo e trança no cabelo assistindo a tudo! Que viagem!

Vista da Ponte

Vista da Ponte

 

Voltando a realidade, fiquei no albergue San Miguel, maravilhoso! Lá os peregrinos podiam deixar aflorar o espírito de artista (inspiração no Caminho não pode faltar) as paredes eram forradas de pinturas feitas por peregrinos e havia tinta a disposição de todos! Lamentei Fabrício não estar ali, já que há alguns dias ele me confessara estar sentindo falta de pintar!

Interior do albergue San Miguel

Interior do albergue San Miguel

O hospitaleiro era um espanhol muito divertido que falava português, pois vivera 2 anos surfando no Brasil, ele parecia um verdadeiro caiçara e me contou que fizera o Caminho no inverno! Confesso que me despertou uma imensa vontade de viver essa experiência!

Hospitaleiro e eu

Hospitaleiro e eu

Depois do jantar (no albergue mesmo) fomos jogar UNO e eu perdi feio… Estava muito feliz, sempre!

Preparando o jantar!

Preparando o jantar!

UNO!!!

UNO!!!


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