Llegamos hasta Santiago

julho 27, 2009

Duas semanas depois (isso foi a um mês atrás. rs) do meu retorno de Santiago de Compostela resolvi finalmente tentar transformar em palavras um pouco de todo sentimento vivido nesta grande e maravilhosa aventura que foi cruzar um país até então desconhecido por mim com pessoas de todo o mundo, cada qual com seus costumes, suas crenças, sua cultura e seus sentimentos.

Grande conquista!

Grande conquista!

Acho difícil contar em poucas palavras o que aconteceu em 24 dias de caminhada, mas vamos ver o que eu consigo.

Escolhi o parque estadual da cantareira para executar esta deliciosa tarefa de recordar e resgatar boas e maravilhosas lembranças.

Daqui da Pedra grande me sinto como se estivesse chegando em León, sem comparar o tamanho da cidade, quantidade de prédios nem a poluição.

Acabo de avistar um avião e a saudade de estar peregrino aumenta. Acredito que ser peregrino é quase uma filosofia de vida, mas vamos deixar para filosofar sobre isto em outra oportunidade.

Nesta caminhada eu ri, chorei, amei, me amei, briguei, odiei, perdoei, me perdoei, aprendi, ensinei, cantei, escutei, ganhei, confiei, perdi, encontrei, me encontrei e o mais importante: AGRADECI!

Ri de mim, dos outros e do nada.

Chorei de alegria, tristeza, saudade e dor.

Briguei comigo mesmo, com minha mãe, com o caminho e com o mundo.

Perdoei aquilo que achava que deveria perdoar e me perdoei por achar que precisava perdoar algo ou alguém.

Ganhei experiência, amigos, força, confiança em mim e nos outros.

Perdi certas vergonhas, certos medos, certas incertezas e o pudor de experimentar todo e qualquer alimento que me seja oferecido, incluindo caracol (escargot).

Agradeci a Deus por tudo que passei, por ser capaz de superar tantas coisas para seguir caminhando, pela natureza que permanece a nossa volta por todo o caminho, por ter a saúde perfeita o que me permitiu – mesmo com dores nos ombros – chegar a lugares como “O cebreiro” onte tive uma das visões mais lindas da minha vida e por ele estar tão presente na minha vida.

Tenho três agradecimentos muito especiais.

Agradeço minha mãe: obrigado por me apresentar o caminho de Santiago!

Tenho um agradecimento especial a uma mulher: forte, loira, alta, persistente, guerreira e linda! Obrigado por ter me dado a chance de amar intensamente de uma forma tão pura,  simples e bonita!

Outro agradecimento especial: Manolo! Grande amigo e a pessoa que me deu a chance de sentir de uma forma tão verdadeira o que seria fazer o caminho de Santiago ao lado do meu amado pai! Gracias Manolo!

As pessoas dizem que você vai encontrar respostas ao final do caminho. Acho que não de uma forma única, mas com certeza todas as pessoas que prestam atenção no caminho encontram de uma forma ou de outra essas respostas.

Eu encontrei as minhas e reafirmei minha posição com relação ao mundo onde vivo.

Obrigado Deus, obrigado mãe, obrigado Kátia, Henrique e Laila, obrigado Santiago!

A pergunta que fica no ar: Você faria o caminho novamente, Angelo?

A resposta é simple: CLARO! ÓBVIO! COM CERTEZA! E espero estar caminhando por lá novamente em 2011.

Ultreia y Suseya!

Um grande abraço do sempre peregrino Angelo Servo.


Caminho Português – 1a Jornada: Lisboa a Alverca do Ribatejo

julho 3, 2009

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Cá está nossa primeira jornada, longos 32 km. De cara, digo que é difícil demais fazer tudo isso de uma vez só, principalmente como primeiro dia. Porém, as opcoes sao poucas para dividir a etapa. Ainda, atrevo-me a dizer que de Lisboa a Santarém (final da 3a etapa) nao há nada de muito interessante (a nao ser a própria Lisboa), e o trajeto é praticamente sobre asfalto – e até que isso mude, talvez seja melhor comecar em Santarém.

De qualquer forma, vale a pena dividir o trajeto ainda em Lisboa, fazendo a primeira pernoite no albergue da Juventude do Parque das Nações, um pouco menos da metade do total do trajeto. (Dica dada por Eva e Irene, as mineiras peregrinas). Veja aqui o mapa.

Muito interessante é passar pela Alfama, antigo bairro lisboeta, logo depois de partir da Catedral da Sé, ponto inicial do Caminho Português. Porém, o ambiente medieval das ruelas estreitas logo dá lugar ao cenário urbano de carros e barulho. Assim até o Parque das Nações, bairro moderno de Lisboa, que pelo menos é um bonito passeio pelo rio Tejo, que nao abandonaremos até Santarém. Ao final do parque, entra-se em Sacavém, e aí começa uma longa e solitária caminhada ao lado de um afluente do Tejo, até Apriete. Só ali, uns 10 km depois, que encontramos um bar para descansar e beber algo.

Depois de Alpriete, um trecho de estrada e outro por campos de cultivo, até cruzar um túnel e ir em direcao de Povoa de Santa Iria. Ali, estávamos esgotadíssimos… Fazer tudo isso de primeira é pedir pra ter bolhas (logo, fica a dica…). Cruzamos a linha de trem e no último trecho antes de Alverca, mais um longo trecho por campos de cultivo, sem uma sombra sequer, ao lado da via férrea. Entra-se na cidade pela estacao de trem, e seguindo reto até o centro urbano chegamos aos Bombeiros Voluntários, que para nossa surpresa nao nos acolheram e ainda disseram que tal coisa era uma “lenda”.

Como já passava de 12 horas de caminhada, pedimos – com o orgulho ferido, diga-se de passagem – ajuda a um taxista, mas nao achamos alojamento na cidade. Nossa opcao foi ir até Vila Franca de Xira, 8km adiante, para ter um cama.

Bom, esse foi nosso primeiro dia. Para quem interessa fazer esse trecho, recomendo fortemente que divida o dia na pousada da juventude do Parque das Nações e reserve com antecedência um lugar em uma das parcas e toscas habitacoes de Alverca, ou caminhe mais 4km até Alhandra, onde os Bombeiros Voluntários aceitam sim peregrinos.

Primeiro Marco do Caminho

Primeiro Marco do Caminho

A Santiago!

Henrique Gerken Brasil


Ultreya e Suseya!

abril 28, 2009

Estava cá folheando a esmo meu Código Calistino, e acabei por encontrar o canto medieval, considerado o mais antigo conhecido, chamado “Dum Pater Familias” – também conhecido com “Canto de Ultreya” e “Canção dos Peregrinos flamengos”. Muito interessante o fato por si só, porém, há algo mais: é desse canto que surgiu a expressão “ultreya y suseya”, tão usado até hoje pelos peregrinos, como uma saudação de bom caminho. E, ainda, também era o grito dos cruzados.

A expressão na verdade significa “para frente e para cima”, em latim: “y ultra ea, y sus ea”. Com o tempo – e haja tempo, desde 1080 – o canto foi sofrendo alterações e chegou até nós “ultreya e suseya”. Como latim não é a segunda língua de ninguém mais há algum tempo, transcrevo abaixo o canto em espanhol, numa tradução belíssima, que mantém a magia dessa música medieval e tradicional – e, se não muito me engano, o “Dum Pater Familias” é cantado pelos padres na missa ao peregrino de Roncesvalles – quem passar por lá poderia me confirmar… E enquanto isso, tentarei colocar aqui no blogue o áudio.

“Cuando aquel buen Padre/ Rey que todo guía,/ A los doce apóstoles/ Los reinos cedía,/ Santiago a su Espana/ Santa Luz traía.

Primicia de mártires/ Entre los apóstoles,/ En Salem Santiago/ Mártir fue preclaro. (refrão)

De Santiago alcance/ Propicio destino,/ Galicia: su gloria/ Da feliz camino/ Para tantas preces/ De canto divino.

Oh Senor Santiago!/ Buen Senor Santiago!/ Eultreya! Esuseya!/ Protégenos, Dios!

A Santiago rinde/ Todo el mundo parias/ Soldado de Cristo,/ Con santas plegarias/ A todos defiende/ De suerte contrarias.

A Santiago clámanle/ Sus milagres santo,/ Y en riesgos y cárceles/ Invocan al Santo/ Cautivos que míranse/ Libres por el Santo.

Oh noble Santiago,/ Patrono valiente!/ Nuestros enemigos/ Tu poder ahuyente;/ Y haz que te agrademos/ Con fe reverente.

Por Santiago Apóstol/ Perdón esperemos/ Y, obsequiosos siempre,/ Las que le debemos,/ Dignas alabanzas/ Con amor le demos. Amén.”

Fonte: Liber Sancti Jacobi “Codex Calixtinus”, tradução ao espanhól por A. Moralejo, C. Torres e J. Feo, 2004, pp. 629-631.

Herru Sanctiagu, Grot Sanctiagu, E ultreia, e sus eia. Deus, adjuva nos.

Henrique Gerken Brasil


Minha primeira vez…..

abril 26, 2009

Muitas são as vezes que repetimos ‘esta é a minha primeira vez…..’. Hoje novamente direi a frase e a partir dela escreverei.

Esta é a minha primeira vez que escrevo em um blog. Nunca tive pretensão de me conectar ao mundo virtual. Sempre achei que quem tinha blog era jornalista, filósofo, etc. e tinha sempre algo interessante a dizer. No meu caso não considerei nunca ter algo interessante a dizer, logo não tenho blog e nunca colaborei em nenhum. Convenceram-me do contrário. Esta é a minha primeira vez….

Esta é a minha primeira vez….. Foi a frase que disse quando fui comprar a passagem para Espanha para peregrinar até Santiago. Nunca tinha ido para a Europa, o velho continente. Mas porque na primeira oportunidade visitá-lo, caminhar quase 800 km e não conhecer Paris, a cidade luz? Ou Roma e sua história, ou Londres e seu fog? Sinceramente, não tenho a mínima idéia.

Esta é a minha primeira vez e vou para o nada, caminhar por onde não conheço sem saber como, quanto tempo e se vou conseguir, por quê?… Esta foi a frase que falei para minha família no aeroporto ao embarcar. Uma frase longa, mas facilmente simplificada: MEDO. Estava com medo, ou, honestamente, apavorado. Meus amigos, meus colegas de trabalho, minha família achou o projeto interessante, todos apoiaram, mas alguns questionaram minha capacidade em executá-lo. O que seria de mim se falhasse? Voltar para casa sem a Compostelana? Será que conseguiria? Medo…..

Fui, caminhei, peregrinei, rezei, chorei, sorri, ri, sofri, comi, bebi, conheci, conversei, ouvi, consegui…… VENCI. Eu tinha descoberto porque havia decidido ir.

Se nunca tivesse falado a frase ‘esta é a minha primeira vez…. ‘ a lista de verbos, resumida acima por não querer me alongar, seria trocada por apenas um: desisti……

Hoje já tenho dois Caminhos  feitos, trabalho voluntário em albergue do Caminho e várias experiências pela Europa. E não pararei por aqui, afinal ‘aquela foi a minha primeira vez….. ’, depois vem a segunda, terceira, quarta…….

Vou aos poucos colocando um pouco das minhas experiências vividas e aprendidas. Vou devagar, mas pelo menos já passei a barreira da primeira vez……

 

Ultreya e Suseya!!!! Um triplo abraço a todos…..


Pequena novidade

abril 24, 2009

Temos agora, aqui na coluna ao lado, uma seção de “Diversos”, onde textos de temas mais específicos poderão ser encontrados, como o excelente texto de autoria de Inácio Stoffel sobre o Caminho de Santiago pela Via de La Plata, e a bonita mensagem sobre peregrinos de autoria da Katia.

 

Herru Sanctiagu, Grot Sanctiagu, E ultreia, e sus eia. Deus, adjuva nos.

 

Henrique Gerken Brasil


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