Da hospitalidade do povo português

maio 18, 2009

Estamos agora em Albergaria a Velha. Com um pouco mais de tempo pois a jornada foi curta. Há muito o que escrever, mas acredito que devemos louvar a receptividade que tivemos até aqui, apesar das dificuldades.

Ontem nos hospedamos em um residencial em Agueda, onde fomos muitíssimo bem tratados por Julio e Ana, que inegavelmente possuem espírito peregrino. E com certeza ainda receberão muitos peregrinos no futuro.

Pelo caminho, principalmente nos últimos dias, recebemos muito carinho de pessoas que estão na rua no momento em que passamos. Hoje mesmo, um senhor, Valdemiro, chapeleiro, 85 anos, conversou conosco, contou um pouco da sua vida e nos cantou algumas músicas. Ontem recebemos laranjas da Da. Maria da Concepção, na saída de Coimbra. Antes, Da. Lurdes orou por nós na capela de São João em Ademia. Em Ribeira de Alcalamouque, Da. Ludovina nos deu água, ofereceu leite e pão e também orou por nós. Quando nos perdemos, Da. Fátima, de Alcanhões, nos colocou no caminho certo. E por aí vai. O bombeiro Alexandre, os escoteiros de Vila Nova da Barquinha e o grupo de peregrinos a Fátima que lá encontramos muito nos deram ânimo.  São esses momentos de carinho puro que nos motivam a caminhar mesmo nas dificuldades que encontramos.

Este caminho ainda é cru, mas é nele que ainda é possível encontrar carinho de verdade.

Ultreya!

Henrique Gerken Brasil


Ultreya e Suseya!

abril 28, 2009

Estava cá folheando a esmo meu Código Calistino, e acabei por encontrar o canto medieval, considerado o mais antigo conhecido, chamado “Dum Pater Familias” – também conhecido com “Canto de Ultreya” e “Canção dos Peregrinos flamengos”. Muito interessante o fato por si só, porém, há algo mais: é desse canto que surgiu a expressão “ultreya y suseya”, tão usado até hoje pelos peregrinos, como uma saudação de bom caminho. E, ainda, também era o grito dos cruzados.

A expressão na verdade significa “para frente e para cima”, em latim: “y ultra ea, y sus ea”. Com o tempo – e haja tempo, desde 1080 – o canto foi sofrendo alterações e chegou até nós “ultreya e suseya”. Como latim não é a segunda língua de ninguém mais há algum tempo, transcrevo abaixo o canto em espanhol, numa tradução belíssima, que mantém a magia dessa música medieval e tradicional – e, se não muito me engano, o “Dum Pater Familias” é cantado pelos padres na missa ao peregrino de Roncesvalles – quem passar por lá poderia me confirmar… E enquanto isso, tentarei colocar aqui no blogue o áudio.

“Cuando aquel buen Padre/ Rey que todo guía,/ A los doce apóstoles/ Los reinos cedía,/ Santiago a su Espana/ Santa Luz traía.

Primicia de mártires/ Entre los apóstoles,/ En Salem Santiago/ Mártir fue preclaro. (refrão)

De Santiago alcance/ Propicio destino,/ Galicia: su gloria/ Da feliz camino/ Para tantas preces/ De canto divino.

Oh Senor Santiago!/ Buen Senor Santiago!/ Eultreya! Esuseya!/ Protégenos, Dios!

A Santiago rinde/ Todo el mundo parias/ Soldado de Cristo,/ Con santas plegarias/ A todos defiende/ De suerte contrarias.

A Santiago clámanle/ Sus milagres santo,/ Y en riesgos y cárceles/ Invocan al Santo/ Cautivos que míranse/ Libres por el Santo.

Oh noble Santiago,/ Patrono valiente!/ Nuestros enemigos/ Tu poder ahuyente;/ Y haz que te agrademos/ Con fe reverente.

Por Santiago Apóstol/ Perdón esperemos/ Y, obsequiosos siempre,/ Las que le debemos,/ Dignas alabanzas/ Con amor le demos. Amén.”

Fonte: Liber Sancti Jacobi “Codex Calixtinus”, tradução ao espanhól por A. Moralejo, C. Torres e J. Feo, 2004, pp. 629-631.

Herru Sanctiagu, Grot Sanctiagu, E ultreia, e sus eia. Deus, adjuva nos.

Henrique Gerken Brasil


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